<ANTONIA PELLEGRINO>
Então resolvi tirar o blog do ar, deixar apenas dois textos - caso alguém venha aqui matar as saudades ou tentar conhecer alguma coisa que essa moça tenha escrito.
***
Desde o ano passado eu não atualizo o inveja de gato com freqüência, mas deixei-o aqui, pendurado entre as páginas virtuais, porque pra mim estávamos dando um tempo. Só ontem entendi que o realmente blog acabou. Esse pedaço laranja de espaço virtual não será mais atualizado.
Eu fui muito feliz aqui. Comecei apenas com a intenção de tirar escritos da gaveta e acabei conhecendo várias pessoas, algumas delas se tornaram grandes amigos, como a Cecília Giannetti; publiquei contos em antologias; entrei para um universo literário com o qual eu nunca tinha sonhado. O inveja de gato fica pra sempre no meu coração, embora não caiba na minha vida hoje. Eu preciso me concentrar em outras formas que parecem pedir segredo - com os anos fui ficando mais pudica. E não posso acarcar com a obrigação de dar as caras aqui. Queria agradecer a cada um dos leitores que passou por aqui, deixou-me comentários, me acompanhou ou só me visitou uma única vez - sem vocês esse blog não terá durado 4 anos, não teria sido a alegria que foi pra mim. Ainda nos encontraremos de outras formas.
Obrigada por tudo,
Beijos
Antonia
</ANTONIA PELLEGRINO> <!--11:13 AM-->
<ANTONIA PELLEGRINO> (texto publicado na edição de 30.12.07 da revista de Domingo do jornal O Globo)
LELECO E O FURA-NUVENS
Leleco é um azougue, menino espoleta descabelado, às vezes mal educado pois anda na frente da turma sem nem olhar pra trás, consulta seu relógio de ponteiro parado no pulso e diz que está atrasado, acelera o passo, molha o dedo na boca e o aponta pro céu, fecha os olhos pra escutar com as mãos sujas de tinta que pintam cavalo sem cela quando olham pra motoca e entendem de estalo de onde vem o vento, então o cowboy se apronta pra cavalgar nos campos de brigadeiro, céu redondo de novembro azul sem fim.
O Fura-nuvens é pássaro metálico de asas de alumínio, detalhes em inox, curativos de epox e parafusos como penas. Onde nos animais estaria o focinho ou bico e nos humanos o nariz, no Fura-Nuvens fica a hélice prateada, tão metálica quanto seu corpo ultra-leve que ostenta pintura laranja e decalque das iniciais do nome de fábrica, “HPG”, ou como se diria no dialeto aeronáutico no qual whisky não é bebida e foxtrot não é dança, este F e aquele W, assim como A é Alfa, B é Bravo e J é Juliette, HPG é Hotel Papa Golf, nome comprido que parece retiro gramado religioso mas não é nada disso, ou talvez o seja totalmente assim: um pequeno templo flutuante de alegria cósmica, sentimento oceânico.
Entre o momento em que o Fura-nuvens se despede do céu, esquece que é pássaro metálico de asa laranja e vira vento ao copular com a terra, até escutar novamente o assovio de Leleco chegando ao galpão pra ambos deixarem de ser gente e máquina e juntos virarem pássaro, o Fura-Nuvens fica amarrado ao solo, e é quando tem seu pior pesadelo: enferrujar no dormitório hangar. Nesses dias há um palavrão que lhe causa calafrio, ansiedade e depressão: obsolescência – entre essas 13 letras habita seu medo mais terrível: a substituição, o esquecimento, o desmonte. Viver na ponta dos cascos pro Fura-Nuvens é decolar da cabeceira da pista pilotado por Leleco, bater asas sobre o mundo, sentir-se andorinha.
No comando do Fura-nuvens, Leleco vai escutando Ipod com sons distorcidos, guitarra, bateria e baixo alto, canto quase inaudível que emerge como transportado por bolhas do fundo do mar até explodir em refrões na superfície. A três mil pés, olhando nos olhos do Cristo Redentor, Leleco foge das terríveis cúmulus-nimbus com rabo de galo mas quando vê uma nuvem com jeito de gato enroscado, menino com cara de lua cheia, pom-pom ou algodão doce, muda a rota, aponta o mancho e galopa intrépido rumo ao buraco negro branco, um rarefeito que quando se aproxima parece parede e faz o pólo norte acontecer em suas barrigas até os dois mergulharem no alvo mar suspenso, adentrarem o entre, o hiato, a fenda, o vazio onde o tempo dá lugar ao silêncio primordial e chão é firmamento; de súbito, Fura-nuvens e Leleco irrompem, renascem pro colorido com sorriso nos lábios.
Agora Fura-nuvens plana suave como o assobio sai da boca do cantor; vê o litoral: a barra da saia rodada da rainha onde areia é anágua e espuma, rendado; plana sobre os lagos de sal e vira a mosca que se agita na penteadeira da moça, sobrevoando caixas de maquiagens, sombras acobreadas e marrons; ao entardecer pensa que a favela é árvore de natal, mas não passa lá perto por temer ganhar um pipoco de presente; cora quando mar e céu se tocam como lábios de uma boca azul, sonha ir até suas gengivas roçar a hélice como contam as história do menino com a pena na boca da baleia pra provocar espirro, abrir a bocarra e ver o outro lado do muro, do mundo - o Fura-nuvens não sabe que a boca está aberta e ele contempla o infinito.
</ANTONIA PELLEGRINO> <!--10:43 AM-->
<ANTONIA PELLEGRINO> (conto publicado na antologia “Dentro de um Livro”, ed. Casa da Palavra)
Estética
Sexo é a nostalgia do sexo
Andy Warhol
Desconfio de quem não pensa putaria o dia todo. Desconfio muito de quem mora no Brasil e não pensa putaria o dia todo. Desconfio mais ainda de quem mora no Rio de Janeiro e não passa o dia pensando putaria. Adam Thirlwell vive em Londres e parece gastar seus dias obcecado pelo mesmo assunto que eu, putaria.
Seu romance é o segundo de uma coleção de títulos safados, chama-se “Política”, foi impresso em papel pólen soft, vem elegantemente embalado numa capa dura verde oliva e preta, contra capa também verde oliva, seguida por três páginas negras com o título enorme, estourado, em off-white, página dupla com um belo desenho reproduzido, outra página dupla pro selo da coleção, em seguida, a dedicatória, o índice e, finalmente “I”, o prólogo.
“Ao tentar apertar, delicadamente, as algemas de pelúcia rosa nos pulsos da namorada, Moshe percebeu que ela fechou um pouco a cara.
Acho que você vai gostar de Moshe. O nome da namorada dele é Nana. Acho que você vai gostar dela também.
- Gatinha – disse – Qual é o problema?”
“Política” me acompanhou por quatro solitários e calorentos dias de Março. Livro numa das mãos, a outra entre as pernas, meu pau de plástico também entre as pernas, uma bisnaga de KY e um copo d água de coco sobre a mesa de cabeceira. O gato Menezes ao pé da cama.
Concordo com a afirmativa de que sexo não é pra quem quer, é pra quem gosta. Exige empenho, técnica, imaginação - não é à toa que boquete em inglês chama-se blow job. E o que talvez distinga os compulsivos do resto da humanidade seja a capa-cidade de excitação nas ruas. Com desconhecidos. Uma nesga de abdômen. Um cheiro. Um ombro que escapa da blusa. Um olhar. Qualquer coisa pode ser o gatilho. E talvez – aqui, sendo um pouco moralista -, o que una aqueles que gostam à-queles que apenas querem sexo, seja a repulsa ao sexo super exposto. Ninguém quer sexo sem subtexto. Esgota. Nada menos sexual que uma cena de sexo, na literatura, descrita em extreme close up, com verbos tipo “penetrou”, substantivos como “vulva” adjetivados à “intumescida”. E Adam é sobre tudo irônico, distanciado, descreve sexo como descreve qualquer outra coisa, inteligente. Exige empenho, técnica, imaginação.
O romance é sobre três personagens, Moshe, Nana e a melhor amiga de Moshe, Anjali, que se envolvem num ménage à trois. O romance é, segundo Adam, sobre a generosidade, sobre se cada um deve ser altruísta ou só pensar em si.
Quando eu resolvi dar pro Adam, eu estava apenas pensando em mim.
Quase ao final do livro, viciada, já me sentindo órfã da narrativa thirlwellinana, resolvo procurar no Google os outros título do autor. E nada. Trata-se do único.
Filho da puta. Não tenho mais nada a dizer sobre ele além disso, filho da puta. No Google, descubro que esse cara, A-dam, é apenas um ano mais velho que eu, lançou o livro aos 24, foi traduzido em 20 países, é o caçula eleito pela revista britânica “Granta”, safra 2003, ou seja, foi considerado um dos 20 melhores autores do Reino Unido abaixo de 40. E, além de tudo, é um gatinho.
Pra mim, sexo é mais sobre imaginação que sobre sexo em si. Sobre brechas, lacunas e intimidade. Sobre coisas em estado latente, prontas pra serem inventadas, e quem sabe, ditas. Os grandes tarados são, na verdade, pessoas de imaginação muito fértil.
Telefono ao Meu Amigo Jornalista que havia entrevistado-o na feira de Londres um ano antes.
- Preciso de um favor.
- Manda.
- Adam Thirlwell.
- O que quê tem?
- Conta tudo.
- Puta autor, tá na Granta, vendeu/
- (corto) Isso tem na internet. Quero saber o que só você, que teve com ele, pode me dizer.
- Simpático, inteligente, bem humorado, bem vestido, sem sombra de metrossexualismo, aparentemente não é gay, nem deprimido, ansioso, dá muita bola ao hype, um pouco acabado pra idade, fuma, bebe, tem traços femininos, é arrogante, é nerd, tem olheiras, usa tons escuros, perfume unissex.
Acorda tarde, dorme pouco, detesta praia, usa produto no cabelo, tipo pasta, não é blasé mas parece, na verdade é tímido, inseguro com mulher, talvez tenha algum problema tipo ejaculação precoce, se alimenta mal, poucos amigos, é frágil, por isso desperta a delicadeza feminina, ambicioso, te-ve uma namorada importante que faz revisão na editora onde ele trabalha, terminaram depois do lançamento do livro, arrogante, não saberia dizer se é judeu, talvez, pelas fotos que o Meu Amigo Jornalista me mandou, parece que ele usa brinco na orelha esquerda – brinco é foda.
Adaptar o livro numa peça de teatro. Idéia gênia. Esse seria o meu primeiro passo. Concomitantemente bom, no lado A e lado B. Por lado A, me refiro à faixa principal de motivação: o sexo. Por lado B, o seguro contra tentativas fracassadas, uma peça inteligente sobre sexo, inevitavelmente faria algum sucesso. É moda e é atemporal montar os ingleses, mesmo que não sejam dramaturgos. É chique, bacana, atrairia todo tipo de atriz descolada com seus milhões em patrocínio, provavelmente uma bilheteria razoável. E, ainda, seria uma forma de me manter colada ao Adam possível, ao livro, ao imaginário dele, seria uma forma de mesclar o meu imaginário no dele.
No email em que Meu Amigo Jornalista havia me mandado com a entrevista e as fotos de Adam, estava a correspondência dele, do Meu Amigo Jornalista, com sua, de Adam, agente. Telefono. Proponho a adaptação. Eles obviamente querem um adiantamento, alto, em dóllar. Pago. E como depois de toda e qualquer tempestade vem a bonança, a outra condição pra que o negócio fosse fechado era que Adam aprovasse a versão final do texto, que seria montada – nada mal.
Gosto dos livros gastos, vividos. A elegância e a beleza do meu exemplar de “Política” foi, ao longo dos meses de trabalho, sendo descascada por grifos, anotações nas margens, gotas de café, unhadas do gato, marcas de dedos gordurosos, grãos de trigo caídos de algum tabule ingerido na madrugada. O livro morava dentro da minha bolsa, dormia na mesa de cabeceira, me acompanhava ao banheiro, à praia, aos bares. Sempre colado. Queria as frases em mim, impressas na pele, gravadas de cor e salteado na memória do meu corpo. Se um dia esse meu velho e bom exemplar for parar num sebo, ele será o registro vivo de uma relação, a história de um texto ao lado de uma leitura sobre ele, e de um terceiro texto nascido desse encontro, como duas teses produzem uma síntese.
Passei três meses trabalhando sete horas por dia seis vezes por semana na adaptação e, durante o resto do dia, pensando num longa metragem só nosso, cheio de referências à “Jules e Jim”, “Os Sonhadores”, “Império dos Sentidos” ou “Último Tango em Paris”. Uma homenagem ao cinema erótico que prestávamos todos os dias, feito reza, no pós almoço, hora da ses-ta, eu e meu escritor, tão perto, tão longe.
Nada de atores representando sexo no palco, seria patético. Optei por uma adaptação sóbria, épica, onde o único persona-gem do livro em cena seria o narrador, uma narradora, por assim dizer, uma mulher falando sobre sexo pode ser extremamente charmoso. Haveria também um back projection, uma tela onde passaria, em alguns momentos, um filme de amor entre duas mulheres e um homem, todo filmado em macro – lente específica para detalhar - por um artista plástico. As imagens quase incompreensíveis sugeririam a sensação enevoada do se-xo a três, quando a gente pouco compreende o que nos produz as sensações, mas sente-as, e gosta.
“Acho surpreendente o que pessoas que não gostam de sexo fazem com o sexo. Fazem-no racional, fazem-no moral. Muitas vezes, as pessoas mais perversas são as que não gostam de sexo.” Por vezes duvidava, na minha larga intimidade ficcional, de Adam. Gostava de imaginá-lo ora como uma pessoa sexual ora como um grande perverso. Nas duas opções ele se dava bem. Se fosse sexual, me comeria. Se fosse um perverso, também. Já eu, queria foder-lhe a cabeça. Embaralhar a vista desse rapaz que fala cirurgicamente das emoções. Queria comê-lo. Se ele é um perverso, eu seria mais ainda.
O nervosismo é um estado de ânimo caracterizado pela emotividade exagerada e, certamente eu estava nervosa antes de enviá-lo o email com o texto. De alguma forma, o email era minha primeira aproximação sem ser propriamente uma cantada, mas sendo, uma cantada platônica, que, caso ele sentisse que fosse uma aproximação soaria um tanto bizarro. Nesse sentido, era um movimento passivo. Como se numa festa ele me olhasse e dissesse, “vamos?”, e eu me deixasse conduzir. E, por outro lado, era a minha exposição máxima, a minha reação textual, elaborada, aos estímulos por ele acionados com seu jeito sincopado de escrever palavras. Um movimento tão ativo quanto mostrar meus peitos na pista de dança.
E acabou saindo como sempre faço com quem realmente me interessa, blasé.
“Dear Adam, here is The Adaptation.
Not from Mr. Kaufman but from Miss Pellegrino.
Hope you enjoy and aprove.
Sincerally, Antonia”
E a resposta finalmente chegou. Para a minha decepção, ele havia adorado o texto. Sugeriu três mudancinhas – devidamente incorporadas – e me parabenizou. Apenas. Claro, fiquei feliz e envaidecida pelos parabéns. Não poderia ser melhor para uma autora. Mas a recusa em mexer no texto é o mesmo que a recusa em mexer no meu corpo. Ele não queria tocar o texto nem discutir uma extensa lista de ajustes nem me obri-gar a viajar a Londres, estabelecendo assim uma dramaturgia mínima seguida por um happy hour com gim tônicas onde eu poderia. Não, eu não poderia.
Ainda tentei, pateticamente, relatar noutras duas mensagens, como andavam os ensaios, como a atriz estava excelente e o diretor empolgado, como o vídeo do back projection havia ficado sensorial, ousado. E ele, que não respondera ao primei-ro email, se desculpou, em resposta ao segundo, elegantemente, dizendo que estava imerso num novo romance e que, para sua própria saúde mental, “Política”, por mais alegrias que o tivesse dado, deveria ser mantido distante.
“O sexo não é específico. Não é original. Podemos achar que nossa perversão é exclusivamente nossa, mas não é. A perver-são é geral. As perversões são universais. Cabe a nós torná-las especificas” . A minha perversão estava claramente ligada ao mundo de um livro que, pra Adam, já não existia mais. A especificidade dela, portanto, era ser quixotesca.
Pedi à produção que enviasse a ele um email oferecendo a passagem aérea, previamente orçada, para a semana da estréia. Seria uma gentileza nossa, uma demonstração de generosidade. Dias depois, a produtora me diz.
- Estava pra te ligar. Mas no meio dessa correria, com a cabeça a mil, acabei esquecendo. O autor do livro, o Adam.
- O que tem o Adam?
- Ele vem, ele disse que vem pra estréia.
Não entendo bem a natureza do tesão de alguém ser intelectual, mas o meu é. Esse não é meu único gatilho, mas certamente o mais subterrâneo deles. Talvez por isso eu tenha escolhido viver entre os livros, entre as pessoas dos livros.
Adquiri na Club Chocolate um super modelo super luxo do Marc Jacobs, parcelado em dez vezes no cartão, pra noite da es-tréia. Bela, com as unhas dos pés pintadas de pinky, dois quilos mais magra, doida pra sair do teatro e entrar num filme pornô barato gravado em Búzios - a natureza é o mais forte dos viagras – e, o que a esperada e tensa noite de quinta me deu em troca foi, transformar-me, antes mesmo das doze badalados, de Cinderela em Sancho Pança. O filha da puta não apareceu.
Desde o lançamento em 2004, a vida do livro, do “Política”, havia sido discreta, embora reluzente nos ditos “meios intelectuais descolados” – nessa tênue fronteira improvável onde se encontram adjetivos tão díspares. O teatro não tem o poder do cinema nem da televisão mas mobiliza um público mui-tas vezes maior que o da literatura. E “Política”, agora, estava de volta às ruas, novamente exposto nas livrarias, em algumas vitrines, nas mãos das pessoas. Circulando. Reim-presso. Isso me fazia sentir generosa com Adam. Sem a minha ajuda, o livro dele não estaria nos disputados círculos da Saraiva. Por outro lado, eu sabia muito bem que, misturado ao meu altruísmo estava um sórdido sentimento egoísta. E essa confusão me deixava feliz.
Ninguém enriquece fazendo uma só peça, mas quando a coisa vai bem, se ganha dinheiro. Não só ali como noutros trabalhos. E eu havia renovado, em melhores, bem melhores condições, meu contrato com uma emissora de televisão.
Tirei dez dias de férias, espremidos, impreterivelmente, entre um trabalho e outro. Resolvi passar sete deles em Paris na casa da Minha Amiga de Infância que se casou recentemente com Um Francês e vive por lá. E em algum momento, minha cabeça divagava por uma travessia sobre o Canal da Mancha... Se o amor, em grande parte, depende de sexo, eu não o amava, mas queria, continuava querendo sexo com ele. Questão de honra.
Achei melhor escrever de Paris, próxima ao Sena, ao Faubourg Saint Honoré, numa cidade onde um novo pé na bunda soaria melacolicamente refinado, não uma hecatombe como um pé na bunda no Baixo Gávea.
“Dear Adam,
Here I´m, in Paris, spending in few days all the money I´ve made during this play´s month.
I´m thinking about going to London. Would like to hear from you. Maybe we could go together at the Kosher Knosherie. And, certainly have, lot´s of fun.
Hope to see you soon,
Antonia”
Não sei se foram as filas enormes do museu do Louvre ou o tempo entre a minha maturada decisão e o presente email, mas, eu estava a vontade escrevendo este email, ainda por cima a frase “and, certainly have, lot´s of fun” - que de-monstra pra mim mesma uma segurança quase assustadora. (O Kosher Knosherie era um restaurante daqueles descritos no romance, onde Adam dizia que se emocionava. Queria vê-lo e-mocionado.)
Não demorou muito e uma gentil e animadora resposta caiu em minha caixa postal. Marcamos um Kosher Knosherie, como eu havia sugerido, para alguns dias depois.
Ao contrário do que eu poderia supor, o jantar, pra daqui alguns dias, não me gerou nenhuma ansiedade, mas calma. Uma placidez típica de quem quer muito um imóvel e está prestes a assinar a escritura. Se não fosse por minha crescente pilha de boletos do cartão de crédito, eu me sentiria uma oriental antiga, desapegada.
Passei carregando minha pequena mala de couro branco pela porta giratória do hotel onde me hospedei, no Chelsea, em Londres. No check in, ítem profissão, escrevi “agente de viagens”. Subi pro meu quarto com uma bela vista e desfiz a pequena mala emprestada por minha mãe. Tirei com cuidado mi-nha mais nova super blusa super luxo do Marc Jacobs, comprada em Paris, três vezes no cartão, especialmente pro jantar, e, passei-a, cuidadosamente, como nunca havia feito. Depois peguei meu velho jeans Yanuk e montei a composição sobre a cama. Experimentei. Me pareceu bom - leve, elegante, desencanado. Até nosso encontro no típico restaurante ídish, ainda tinha algumas horas para um soninho da beleza.
Reamarrei minhas sandália com paetês foscos bem à porta do Kosher Knosherie, na Greville Street. É tenso chegar antes da hora marcada, britânico chegar na hora marcada e chique aparecer com dez minutos de atraso. Abri a porta do restaurante com as mãos trêmulas. O lugar é bem como Adam havia descrito no livro, um mundo mais antigo, com uma reprodução da “Tentação de Santo Antônio”, de H. Bosch, na parede, cadeiras com espiais douradas no recosto e muitos judeus ortodoxos no balão comendo o que, segundo Moshe, personagem do livro, é a melhor carne curada em salmora da cidade. E ali, um pouco ao fundo, de costas, fumando. Era ele. Senti vontade de fazer xixi, desaparecer, chamar a defesa civil. Senti vontade de. Não havia mais tempo pra outra vontade senão a de caminhar, mesmo a contragosto, em direção a ele. Mais que dez minutos de atraso é falta de educação.
- Sem kippur e com bloco de anotações. Você deve ser o Adam.
</ANTONIA PELLEGRINO> <!--10:42 AM-->
<ANTONIA PELLEGRINO> (continuação)
- Eu já estava começando a achar que as anotações seriam minhas únicas companhias da noite.
Supus que eu não fosse a única pessoa tensa com o encontro.
- Eu nunca faria isso com o "meu autor".
Ri de minha própria piada interna, ele não tinha a menor idéia do que eu realmente estava dizendo. Nós dois rimos, simpáticos. Eu me sentei. A gente se olhou por um tempo. Ele me perguntou:
- Se importa que eu fume?
Balancei a cabeça negativamente. Ele acendeu um cigarro. Eu pedi uma bebida, gim tônica, e ele, uísque.
- Então, Adam, quando sai o seu próximo livro?
- Te passo um dos primeiros exemplares se você quiser adaptá-lo.
- Não, eu não sou uma dramaturga obcecada por adaptações. Mas adoraria receber um dos primeiro exemplares, devidamente autografado. Na verdade, agora eu quero escrever a minha própria peça.
- Primeiro as damas. Você me conta a sua história.
E eu falei e falei, longamente. Sem demonstrações de inteligencia nem cabecismos rococós, típicos dos desafortunados de espírito. Nós rimos e falamos, sobretudo, merda. Sei bem que o efeito do álcool nos desinibiu, mas não saberia dizer se aquela empatia foi fruto de um campo magnético que atrai escritores do universo inteiro, se o real e generoso interesse a respeito do universo alheio garante uma boa conversa ou se éramos duas pessoas interessantes conversando e, em qualquer lugar do mundo duas pessoas interessantes se divertem. Numa ida ao banheiro, me vi no espelho e cheguei a pensar: um clima, está rolando um clima? Não, certamente isso era efeito do álcool e eu nem podia lavar o rosto senão a maquiagem despencaria.
- Eu devia ter ido ao Brasil antes, na estréia da peça. Você é ótima, entende todas as minhas piadas.
- Ah, essa é uma boa forma de dividir a humanidade. Aqueles que entendem e aqueles que não entendem nossas piadas.
- Eu tenho fobia social, sempre sofro imaginando que não sou uma boa conversa pra muita gente.
- Desencana. Você não comanda um programa de auditório, você escreve. E pra mim é fácil te entender. Eu entrei no seu mundo, no mundo do "Política".
- E como esse mundo te parece?
- Atraente.
Frio na barriga, luz vermelha piscando, barulho ensurdecedor dentro da minha cabeça. Sim, eu havia falado a palavra "atraente" de um jeito que jogava uma conversa que ia bem para uma outra camada de compreensão, onde ela não necessariamen-te obteria êxito.
- Você também imagina que eu fiz um ménage à trois?
- Eu misturo realidade e ficção. Não me importa se você re-almente fez um menage. Você pode ter visto filmes, lido, inventado ou feito. Tanto faz. Com exceção do Kama Sutra, sexo é sempre a mesma coisa, imaginação.
- É, ali no Kama Sutra o caso é outro, atletismo.
- Minha vocação atlética ficou perdida no fundo de alguma piscina, na quarta série, quando eu atrasei a prova de revezamento.
- Não parece.
- Que eu possa ter atrasado a prova de revezamento?
- Que você tenha abdicado sua vocação atlética.
- Eu estava brincando. Eu nado todos os dias, adoro contar azulejos. Mas parece que nós realmente chegamos a um ponto irremediável. Você está do outro lado da humanidade, daque-les que não entendem minhas piadas.
- Só quando eu fico nervoso.
- Isso tá no livro, você fica emocionado aqui.
- Não, não é isso.
- Crise de ansiedade? Esqueceu o rivotril?
- Não, você. Você me deixa nervoso.
Um tempo pra cair a ficha.
- Isso em boxe se chama knockuot.
- Nesse caso, eu cuido de você.
Sem dúvida, ele era um perverso.
Comemos a famosa carne curada na salmora - eu não saberia dizer se era a melhor de Londres mas, de fato, era sensacional. Ele pediu sobremesa, eu não, eu comi um pedaço da dele. Éramos os últimos no restaurante, já naquele momento típico em cidades européias ou norte americanas, em que os garçons, sem que você peça, te trazem a conta.
- Isso nunca acontece no Brasil.
- Eu disse, devia ter ido pra lá antes.
Ele pegou a conta.
- Deixa eu te convidar, Adam.
E eu fiz um movimento tentando pegar a conta. Ele interceptou a minha mão, contendo-a debaixo das duas mãos dele, fazendo com um dos dedos um delicado e quase imperceptível carinho, e disse:
- Você já cruzou o oceano Atlântico. Esse gesto não está à altura do seu, mas é o mínimo.
Doce, esse momento foi doce. Educado, sem dúvida, mas desarmado também, o que é raro. Ele era mais cativante do que eu havia imaginado e isso me despertava uma enorme ternura, uma vontade profunda de agir delicadamente com ele.
Ainda tentamos pedir ao garçom que nos servisse mais uma, eu dizia que era muito injusto fazer aquilo, fechar o restaurante na cara de dois bêbados desamparados, e acabamos saindo de lá com um uísque em copos de plástico, aos risos, comigo pedindo a ele que me desse um trago do cigarro, pra baixar minha pressão. E eu tentei pegar um táxi e não consegui, ele levantou o braço e o carro parou. Ele disse, técnica. Nós entramos.
Ele disse "posso?", e encostou a cabeça no meu ombro, aproximando o corpo. E eu coloquei o braço sobre as costas dele, aproximando ainda mais nossos corpos. Senti de perto seu perfume unissex, o cabelo duro de pasta espetando meu rosto, o veludo molhinho da jaqueta, suas mãos sobre a minha coxa. Chovia pouco, o suficiente pra manter as ruas molhadas, refletindo os faróis dos carros, os letreiros da cidade. Fomos calados, juntos, por todo o percurso até o hotel. Fui ouvindo a respiração dele, rascante, de quem fuma. E, ali, em frente à porta giratória do hotel, às três da manhã, num táxi com calefação, eu achei que não devia estragar nossa história, essa relação que fora perfeita. Eu não queria guardar nenhuma lembrança, só a nostalgia de quando eu costumava querer.
</ANTONIA PELLEGRINO> <!--10:42 AM-->